Viagem Semiótica: Neon Rose #21 (NR-2), Victor Moscoso

Para Victor Moscoso a experiência psicodélica estava definitivamente ligada à cor, uma vez que as ilusões visuais e cromáticas eram um dos aspectos mais poderosos da viagem psicodélica, como descreve o Dr. Albert Hofmann (2009) durante uma de suas auto experiências controladas:

Agora, pouco a pouco, eu poderia começar a desfrutar as cores sem precedentes e os jogos de forma que persistiram por trás de meus olhos fechados. Imagens caleidoscópicas, fantásticas surgiram em mim, variando, alternando, abrindo e então se fechando em círculos e espirais, explodindo em fontes coloridas, reorganizando e se cruzando em fluxos constantes. Era particularmente notável como cada percepção acústica, como o som de uma maçaneta de porta ou de um automóvel passando, foi transformada em percepção óptica. Todo som gerava uma vívida imagem variável, com sua própria forma, consistência e cor (HOFMANN, 2009).

Outra experiência citada por Hofmann, relatada originalmente no livro "LSD" de John Cashman, fala sobre a relação da experiência psicodélica com a música.

Eu penso que se passaram vários minutos antes que eu percebesse que a luz estava mudando caleidoscopicamente de uma cor com lances diferentes em relação aos sons musicais, vermelho luminoso e amarelo no registro alto, púrpura forte no baixo. Eu ri. Eu não tinha nenhuma ideia de quando tinha começado. Eu simplesmente soube que tinha. Eu fechei meus olhos, mas as notas coloridas ainda estavam lá. Eu fui superado pelo brilho notável das cores. Eu tentei falar, explicar o que eu estava vendo, as cores vibrantes e luminosas. De alguma maneira não parecia importante. Com meus olhos abertos, as cores radiantes inundaram o quarto e dobravam uma em cima da outra, em ritmo com a música. De repente eu fiquei ciente que as cores eram a música. A descoberta não parecia surpreendente. Valores, assim apreciados e guardados, estavam ficando sem importância. Eu quis falar sobre a música colorida, mas não pude. (apud HOFFMANN, 2009).

Nas palavras de King (1996), Moscoso conseguiu transmitir essa experiência visual de estar "chapado" melhor do que ninguém. Para o autor, pode-se olhar para alguns dos seus trabalhos e sentir uma fração da experiência visual sem nunca ter usa do nenhuma substância psicoativa. Essa tradução pode ser vista no pôster para o show da The Millers Blues Band no The Matrix, em 1967, onde Moscoso combina fotografia, formas e cores para gerar um impressionante efeito ótico – por ser um dos primeiros trabalhos do artista, usa uma letra relativamente legível e normal.


Neon Rose #2 (NR-2), Victor Moscoso, 1967.
Neon Rose #2 (NR-2), Victor Moscoso, 1967.
Disponível em: <http://www.victormoscoso.com/gallery1.htm>. Acesso em 22 abr. 2016.

A imagem central do pôster, assim como no trabalho de Wes Wilson, é uma mulher que o artista chama de "pin-up psicodélica". Porém, ao contrário do trabalho de Wilson, Moscoso costumava usar fotos e o uso da figura feminina não era constante. Quando aparecia, costumava ser uma foto modificada de cartões postais eróticos franceses do início do XX. Neste caso, a foto faz parte da série de cartões número 1758, produzida pela editora P. C. Paris (data e fotógrafo são desconhecidos).


Série de cartões postais eróticos #1758, P. C. Paris.
Série de cartões postais eróticos #1758, P. C. Paris.
Disponível em: <http://treadmill-to-oblivion.tumblr.com/post/87149060808/pc-series-1758-companion-to-this-post>. Acesso em 22 abr. 2016.

Esses cartões – que eram chamados de cartões postais apenas pelo tamanho, porque não podiam ser enviados via correio – costumavam ser vendidos, em segredo, muitas vezes em pacotes, em quiosques de rua e tabacarias e representam algumas das fantasias eróticas da sociedade da época.

Observa-se nos cartões postais eróticos que as posturas, os gestos dos modelos, os acessórios e os objetos à sua volta seguem um padrão e estão carregados de sentido simbólico, reforçando suas auto-representações: recorria-se às alegorias, expressões faciais que sugerissem significados ao mesmo tempo em que eram evocados através de elementos visuais como traços e composições. Assim, a nudez não se tratava da regra principal: grande parte dos cartões postais mostravam modelos com roupas íntimas entreabertas, vestindo fantasias, ornamentos (como aventais, meias longas e sapatos de salto altos para mulheres e fardas e botas para os homens) que de alguma forma autoriza ao atrevimento (GONÇALVES, 2011).

Na foto utilizada por Moscoso, a modelo usa trajes que parecem egípcios, talvez numa representação da beleza e sensualidade míticas associadas a Cleópatra, que na década de 1960 ganhou impulso graças ao épico homônimo estrelado por Elizabeth Taylor, mas que já vinha desde o filme de Cecil B. DeMille (1934), onde foi interpretada por Claudette Colbert. É válido também apontar a semelhança da modelo do cartão com a Cleópatra interpretada por Theda Bara no filme de 1917. Assim, em contraponto à obra de Wilson, a forma feminina parece assumir uma representação muito mais sensual e erótica.


Claudette Colbert, Elizabeth Taylor e Theda Bara interpretando Cleópatra.
Claudette Colbert, Elizabeth Taylor e Theda Bara interpretando Cleópatra.
Disponível em: <http://www.imdb.com/character/ch0026970/mediaindex>. Acesso em 22 abr. 2016.

Ele explorou o potencial de combinações de cores que faziam as bordas das formas parecerem saltar ou vibrar. Estes efeitos trouxeram um novo nível de intensidade visual para a arte do pôster. Os efeitos vívidos de foram inspirados por mais do que apenas pura percepção artística, é claro, mas Moscoso nunca representou a droga diretamente nem evocar seus efeitos mentais com outros artistas faziam. Em vez disso, ele tomou a experiência psicodélica simplesmente como plano de fundo de uma realidade trivial que orientava a criação. (MEDEIROS in OWEN; DICKSON, 1999, p. 68)

Todavia, apesar de a foto ter destaque, nada se compara ao impacto causado pelo uso do seu conhecimento sobre cores. Conhecimento ao que aprendeu na Universidade de Yale quando teve aulas de interação da cor com Josef Albers, que havia sido professor da Bauhaus e escrito o livro Interaction of Color, uma referência na prática do design e uma influência sobre a op art. "'Nunca vibre as cores' era um dos mantras de Albers" (HELLER; VIENNE, 2013, p. 118), mas seria justamente subvertendo essa regra que Moscoso criaria uma das marcas do pôster psicodélico. "Eu inverti tudo o que tinha aprendido e, uma vez que fiz isso, então tudo se encaixou. Tudo o que eu tinha aprendido na escola começou a fazer sentido", explica2.

O efeito gerado, que o artista chamava de cores vibrantes, é conhecido como contraste simultâneo e é esclarecido por Barros (2009, p. 91) quando diz que "toda vez que juntamos duas ou mais cores, ocorre a interação cromática (uma cor interfere na percepção de sua vizinha e vice-versa). Quando as duas cores são complementares3, elas se intensificam mutuamente".

Dessa forma, ao observarmos uma cor ao lado de seu tom complementar, ambos parecem mais vibrantes e criam um efeito de pós-imagem, ou seja, quando um "fantasma" de uma terceira cor aparece- um efeito muitas vezes também chamado de ilusão de ótica. O resultado, acrescentam Farina, Perez e Bastos (2006), acentua o brilho da cor e pode aumentar o seu efeito e beleza, mas tem a desvantagem de diminuir a legibilidade por causa do efeito.

No pôster, o efeito se dá entre os usos dos tons próximos ao ciano junto a algo como alaranjado4 que é reforçado pelo uso de outro tipo de contraste: o de tom. "O contraste de tom é conseguido através do uso de tons cromáticos. Esse contraste pode ser entre cores primárias, sem modulações, o que produz sempre um efeito violento" (FARINA, PEREZ e BASTOS, 2006, p. 76).

Em Neon Rose #2 o contraste de tom se dá entre o ciano e magenta e tem seu efeito de vibração intensificado quando acontece a repetição do contorno da mulher com as linhas irregulares que gera uma ilusão de movimento. Essa sensação de movimento, explicam Otero-Millan et al (2012), se dá por pequenos e rápidos movimentos dos olhos que acontecem enquanto tenta-se fixar o olhar em algum ponto do padrão repetitivo da imagem e é reforçado pelo piscar dos olhos.


Os contrastes cromáticos em Neon Rose #2.
Os contrastes cromáticos em Neon Rose #2.
Fonte: do autor, 2014.

No fim, esclarece Moscoso5, "seu olho não consegue distinguir o que está na frente do que está atrás – você está realmente fodendo (sic) com os limites da visão; com os limites físicos do sistema ótico. E o que você vê é este zumbido confuso!" É nessa confusão de cores, os principais elementos gráficos construtivos, que se encontra a mensagem conotada não só deste pôster, mas de quase toda obra do autor:os efeitos visuais provocados pelo LSD.


Leia também: Viagem Semiótica: The Sound (BG-29), Wes Wilson.
Leia também: Viagem Semiótica: Skull and Roses (FD-26), Mouse & Kelly.
Leia também: Viagem Semiótica: Flying Eyeball (BG-105), Rick Griffin.

Rafael Hoffmann (Setembro/2014)
Esse texto é parte da dissertação "Música Colorida: Uma viagem cultural e estética pelo movimento psicodélico de São Francisco e seus reflexos na linguagem gráfica dos pôsteres de shows entre 1965 e 1696".


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Notas


1 Além de trabalhar com a Family Dog, Victor Moscoso trabalhou com diversos outros salões em São Francisco, além de festivais de cinema e arte. Por isso, os pôsteres criados para eventos que não tivesse ligação com a Family Dog eram registrados com o nome da sua empresa, Neon Rose ou NR, seguido do número.
2 Disponível em: <http://michaelerlewine.com/viewtopic.php?f=225&t=1124>. Acesso em 22 abr. 2016.
3 Cores opostas no círculo cromático.
4 Devido às fontes da imagem serem reproduções de impressões feitas a quase 50 anos, existe uma variação muito grande das cores provocada pela ação do tempo ou pelo processo de digitalização. Isso torna difícil saber com exatidão a cor original do pôster.
5 Disponível em: <http://www.tcj.com/an-interview-with-victor-moscoso/3/>. Acesso em 22 abr. 2016.
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Referências


BARROS, Lilian Ried Miller. A cor no processo criativo: um estudo sobre a Bauhaus e a teoria de Goethe. São Paulo: Editora Senac, 2006.
FARINA, Modesto; PEREZ, Clotilde; BASTOS, Dorinho. Psicodinâmica das cores em comunicação. São Paulo: Edgar Blücher, 2006.
HOFMANN, Albert. LSD: Minha Criança Problema. Disponível em: <http://www.egov.ufsc.br/portal/conteudo/livro-albert-hofmann-lsd-minha-criança-problema>. Acesso em: 22 abr. 2016.
KING, Eric. Drugs And Psychedelic Poster Art. 1996. Disponível em: <http://www.therose7.com/drugs.htm>. Acesso em 22 abr. 2016.
GONÇALVES, Clenya Ferreira. Fantasias Carimbadas: Fotografias Eróticas nos Cartões Postais (1900-1920). In: 63ª Reunião Anual da SBPC, 2011, Goiânia. Disponível em: <http://www.sbpcnet.org.br/livro/63ra/resumos/resumos/1281.htm>. Acesso em: 10 abr. 2016. Resumo de Comunicação Livre.
HELLER, Steven; VIENNE, Véronique. 100 idéias que mudaram o design gráfico. São Paulo: Rosari, 2013.
MEDEIROS, Walter. In: OWEN, Ted; DICKSON, Denise. High Art: A History of the Psychedelic Poster. London: Sanctuary Publishing Limited, 1999b.
OTERO-MILLAN, Jorge et al. Microsaccades and Blinks Trigger Illusory Rotation in the "Rotating Snakes" Illusion. The Journal Of Neuroscience. Washington, p. 6043-6051. 25 abr. 2012. Disponível em: <http://www.jneurosci.org/content/32/17/6043.full.pdf+html>. Acesso em: 22 abr. 2016.



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